Entregue o papel...
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Assim, secamente, sou recebida por uma funcionária quando me preparava para realizar um exame radiográfico, num serviço de Urgência, no Hospital da minha área de residência.
Fiz o que ordenaram: entreguei o papel (uma requisição médica de um exame radiológico aos rins (sou uma pessoa muito achacada a cólicas renais, e no auge da dor sou obrigada a recorrer ao hospital), e com uma dor nauseante e aguda, sentei-me na pequena salinha de espera.
Esperei cerca de 45mn, sem que a tal chamada prometida se concretizasse e me despachasse daquele local onde a dor alheia ao nosso lado não tem valor, quando comparada com a nossa.
Nisto, numa cena repetitiva, o mesmo monólogo se estabelece entre um outro doente e a mesma funcionária:
“- Entregue o papel, espere lá fora, feche a porta ao sair. Nós já a chamamos…”
Desta vez o interlocutor arrisca dizer em jeito de esclarecimento:
- Minha senhora, É URGENTE!!! Essa paciente está com muita falta de ar e precisa de fazer vapores para ficar aliviada. O sr. dr. pediu esse exame para avaliar a capacidade respiratória e prever a quantidade de oxigénio necessário. Se a pudesse atender já…
- Aqui todos os doentes são urgentes. Aguarde a sua vez – responde a funcionária de novo com aquele tom seco, com que me atendeu e de quem está a cumprir uma obrigação, sem um “se faz favor”.
Porque continuasse a demorar a chamada, abeirei-me da mesma funcionária e perguntei se ainda ia demorar muito, questão que coloquei já vergada sobre a opressão da dor horrível e insuportável que me atazinava.
- Aquele senhor, há pouco, entregou um pedido para uma doente com falta de ar, agora vem a senhora reclamar! Isto hoje está bonito, está! A continuarmos assim, quem vai sair daqui doente sou eu!!!
-Mas, pode esclarecer-me sobre esta demora?! Já aqui estou há cerca de uma hora e não fui atendida. Já não aguento mais as dores e sinto-me a desmaiar.
- Ó minha senhora, nós não temos de atender só doentes que se nos dirigem a pé. Temos outros… temos outros... Saiu daqui um traumatizado grave e isso demora muito, sabe?.
- Mas nesses casos não podiam avisar os outros doentes do motivo de espera tão prolongada?! Nós não sabemos o que se passa aqui dentro.
Comecei a sentir as pernas a fraquejar e tive de me agarrar ao balcão para não desfalecer.
A funcionária ao aperceber-se da situação, mandou-me entrar na sala de Radiologia para finalmente realizar a tarefa requisitada.
Contornando a divisória entre a recepção e a sala de exames, vejo surgir à minha frente a dita funcionária com ar alucinado. Sem olhar para mim:
- Deite-se aí, de barriga para cima e desça as calças até aos joelhos… (ao mesmo tempo que se dirigia para trás de um vidro e carregava em algo, que pelo som, seriam teclas).
De novo na minha direcção, agora com uma placa na mão, que colocou numa espécie de gaveta metálica, colocou o aparelho sobre mim e acendeu uma luz (se calhar para ver melhor os meus rins?), fechou a dita gaveta e dirigindo-se de novo para trás do vidro, e já de costas, murmurou em voz alta:
- Quando eu disser pare de respirar…
Zuuu biiiipp
- Pronto, minha senhora, já se pode levantar e voltar para o médico que a atendeu…
Enquanto puxava de novo as calças para a cinta e aproveitando os breves instantes da sua presença ainda na sala de exames, disse em voz alta:
- Muito obrigada. Obrigada, sobretudo pela sua simpatia!
Ela voltou-se para mim, muito corada, fitou-me, voltou as costas e avançou para o compartimento contíguo.
Vozes do mar
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Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
Florbela Espanca
As crianças e a Internet I
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A Comissão Europeia, através do Eurobarómetro, tornou público em Maio último, o estudo SAFER INTERNET FOR CHILDREN (resumo em PDF e em inglês).
Trata-se de um estudo qualitativo, efectuado a crianças dos 9 aos 14 anos, nos 27 estados da União Europeia envolvendo também a Noruega e a Islândia (universo de 29 países, numa amostra de 938 sujeitos, 30 dos quais portugueses), tendo em Portugal sido conduzido pela TNS Euroteste.
Teve como objectivos de estudo, aferir (1) o uso da Internet e do Telemóvel; (2) o comportamento on-line; e (3) as percepções do risco e da segurança.
Fiz apenas uma leitura de soslaio, mas retenho do mesmo que as crianças europeias demonstram-se demasiado confiantes em relação ao seu conhecimento dos riscos e segurança da Internet.
Apesar de enumerarem todos os riscos e precauções a ter, e considerarem-se bem supervisionadas pelos pais, alguns dos relatos expostos no estudo demonstram a incongruência entre o reportado e o comportamento das crianças:
“Falei na Internet acerca dum trabalho escolar,e passado um tempo, uma pessoa convidou-me para uma private chat room, onde me pediu o meu número. Nessa altura eu não sabia os riscos e dei-lhe, então essa pessoa começou a ligar-me. Acho que devia ter uns 50 anos.”
(rapariga de 9-10 anos, Finlândia)
“Combinei encontrar-me com ele numa estação, e quando vi que era um homem horroroso de 44 anos, vim-me embora”
(rapaz de 12-14 anos, Dinamarca)
O estudo deixa claro, pelos relatos das crianças, que o contacto com estranhos confere um sentido de aventura, num cunho apelativo e fortuito, sendo considerado por muitas como um «jogo» estimulante, inclusivamente quando julgam ter identificado um adulto.
Perante um problema, as crianças mais jovens afirmam socorrer-se de imediato dos pais, enquanto que as mais velhas declaram a recorrência aos amigos e apenas em último recurso os pais (questões de auto-afirmação e desejo de autonomia – tema interessante para outro post).
A comissária Viviane Reding alerta, e bem, que todo o cuidado é pouco no que diz respeito à segurança das crianças, e que urge uma educação pró-activa sobre os mais diversos meios de comunicação. Já em 1999 foi aprovado pelo Parlamento e Conselho Europeus, a adopção de um plano de acção que visa o fomento de uma utilização mais segura da Internet, daí para cá muitas iniciativas surgiram (e.g., uma comunicação), mas ainda há muito caminho a desbravar, não só pela educação preventiva dos pais e educadores, como pelos mais diversos organismos competentes, aos quais não basta legislar (a actuação prática fica muito aquém dos comunicados).
Se com os resultados deste estudo se pretendia melhorar o Programa Internet Segura e promover acções de consciencialização, o mesmo nas suas conclusões não refere quaisquer recomendações de iniciativas (pelo menos no que consultei), talvez devido ao disclaimer estampado em rodapé de 1ª página, que iliba o encomendante:
"This document does not represent the point of view of the European Comission.
The interpretations and opinions contained in it are solely those of the authors"
Gostaria de ver um estudo similar (porventura quantitativo), mas com o mesmo número de sujeitos por país, sendo que a análise comparativa poderia trazer outros resultados, que permitam a elaboração e implementação de um programa adequado à realidade de cada país.
Em jeito de pró-actividade aconselho:
- Como ser Cyber-esperto (Ministério da Educação).
RAINBOW
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Como neste país está cada vez mais difícil sobreviver a tudo isto, descobri para onde posso ir quando finalmente me quiser evadir deste pedaço de terra à beira-mar plantado.
Provavelmente terei pouco tempo para aproveitar este local!!!
Quando outros o descobrirem (e 40 milhas não será assim tão longe da ZEE, ficará despojado de toda a beleza e pureza, pois não vão por lá faltar, mesmo com a salvaguarda do Regulamento (CE) n.o 1568/2005 do Conselho Europeu de 20 de Setembro de 2005, os “amigos” arrastões!!!
E porque hoje, a revi, pude compreendê-la melhor
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CONVERSAS AMENAS E AMENAS CONVERSAS
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