Ari - O meu Sobrinho Neto
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Apesar
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Apesar de todos os raspanetes, apesar do beijo que sempre esperei em vão, receber à noite, que me aconchegasses a roupa, que me dissesses que me amavas, apesar de tudo isso, sinto a tua falta.
Segundo o que me contaram nunca me quiseste, não me desejaste.
Tenho tanta pena! Sempre te quis agradar, sempre quis fazer tudo direito, até uma altura….
Não sei porquê mas houve um dia que te comecei a ver de uma maneira diferente, acho que me zanguei contigo.
Não consigo explicar ao certo o que foi, apenas tenho uma imagem confusa e difusa, muitos sentimentos ao mesmo tempo.
A ideia que tenho é de dor, vergonha, tristeza, de te ver beber demais, tomar remédios a mais, de te ver ou calada, ou passada.
Sempre mal, se chovia, era mau, se estava sol, era mau também. Sofri tanto a tentar perceber o que te agradava. Lembro-me bem de tratar de ti, quando estiveste doente, de te dar a sopa…
Tive tanto medo cada vez que bebias demais, quando me ias buscar bêbada, aqueles percursos com o carro aos bordos, vezes sem conta.
Tanto sofrimento tiveste, tanto fizeste sofrer.
Uma vez decidi partir, tomei alguns dos teus remédios, escrevi uma carta de despedida, dramática, e deitei-me. Mas não morri, acordei às cinco da tarde, ninguém tinha dado conta, rasguei a carta, e ainda aqui estou. Tinha treze anos.
Ri-me quando vi, que mais uma vez ninguém tinha dado conta de nada, percebi que estava por minha conta e risco.
Essa nostalgia de partir ainda a tenho, às vezes, esse desespero de não continuar!
Vim aqui dizer-te que apesar de tudo isso, tenho saudades tuas.
Que não te guardo nenhum ressentimento, levou tempo, a chegar aqui, mas cheguei!
E mando-te “aquele” beijo que me ficaste a dever.
Para o bem e para o mal...
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Lembram-se do questionário aos noivos, aquele do género “ou respondes e provas tudinho ou alancas com uma multa”? Com a história do questionário, o fisco trocou as voltas ao seu dever, ou seja, “obrigava” os casadinhos de fresco a fazerem declarações de outros, ou como se diz na minha zona "a bufarem sem deitar cheiro". Mas agora, depois do burburinho nacional, já manda os seus agentes fazerem aquilo que é seu dever: levantar o rabinho da repartição e actuar no terreno. Desta feita, «visitam quintas nos dias em que organizam festas de casamento».
Digamos que, se estas visitas nos dias festivos não atrasarem ou importunarem a prestação do serviço e a boda em si, do mal o menos, pois conseguem “verificar” diversas actividades no mesmo acto. Caso contrário, mancham a festa, borram a foto, causam stress, resumindo, fazem o papel do senhor lá cima, são uns empata…
Nesta saga da caça à organização de eventos – perdão, matrimónios – estou Curiosa com o seguinte: sendo que há imensos casamentos religiosos, o fisco também vai fiscalizar as igrejas? Se tivermos como exemplo a Católica, em que o preço – perdão, donativo – depende do pároco, vão exigir regulamentação do P.V.P.? Vão aplicar multas e exigir o pagamento das contribuições fiscais?
Diplomata americano preso por pedofilia nos EUA
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Vídeo do "Jornal das Dez" da Globo a 11/07/2008
Para comparar e reflectir...
CONTO (I) - Não te posso ter...
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Olhei-te, com infinita ternura, à transparência das vidraças da alma e emudeci rendida. A voz, fortemente embargada pela comoção… Foi surpreendente a forma, como me tocaste. Absolutamente indescritível e arrebatadora!Levaste-me muito para além de mim e de todos os limites… Por ti desobedeci e transgredi, ultrapassei regras e convenções, superei, até, as fronteiras físicas do meu corpo.
Permaneço, agora, a planar entre o Céu e a Terra, algures no meio de coisa alguma, na proximidade do lugar onde pressinto que estejas, de sorriso franco e braços abertos, para me receber.
E subitamente, como num simples passe de mágica, tudo em volta, se transforma. Os dias, habitualmente baços, ganham a cor e o brilho únicos dos instantes de felicidade. Os rostos anónimos e sempre fechados dos transeuntes tornam-se expressivos e afáveis. Os detalhes mais insignificantes, aqueles a que vulgarmente não se presta atenção, tornam-se distintos e imbuídos de assombro. E até a própria vida, que antes se perfilava monótona e pardacenta, parece despertar de um feitiço, agitando-se e fervilhando de paixão, numa sucessão de momentos inenarráveis e sublimes.
O simples reflexo da tua existência aconchega-me o espírito. Pacifica-me. Traz-me energia positiva. Sacia-me a sede e a fome. Concilia-me comigo mesma e com a natureza humilde das coisas.
Sem o saberes, és o meu refúgio secreto. Noite e dia. Minuto a minuto. Desde que acordo até que adormeço. Estás no mais breve sopro do ar que respiro. Em cada pequeno fio urdido na complexa teia dos meus pensamentos. Na distância dos sentidos. Na ausência dos abraços… Os nossos dias dourados! Dias de encontro, de dádiva, de entrega. Dias de eternizar Espírito e matéria. Os nossos dois mundos, inconcebivelmente tão díspares mas liminarmente tão próximos!
Sem o saberes, és a força anímica de todas as horas, no duro confronto que faço com a realidade. O porto de abrigo das minhas emoções. O local recôndito e sagrado onde ancoro, em silêncio, para retemperar as forças, agradecer a Deus e buscar um novo alento.
Sem o saberes, és o mais belo e precioso presente com que a vida me brindou, desde que te conheci!
Sem o saberes, lentamente, entregaste-me a tua emoção e com ela coloriste o meu mundo com as tuas cores quentes... Trouxeste contigo o calor do teu amor.
AMO-TE, mas não te posso ter...
SÊ inteiro
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Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim, em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
................................Ricardo Reis
O desespero
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É uma onda que te invade sem pedir licença, é algo superior a ti. Uma angústia que aparece, timidamente, que entra na tua alma, deita-se contigo. Devagar, devagarinho, vai-te fazendo cócegas no coração, vai-te sussurrando palavras tristes ao ouvido, como se fosse um mosquito.
Tentas afastar, empurrar…Até que o cansaço se apodera de ti, vais-te deixando levar, deixas de resistir.
Aquilo que começou por ser um incómodo, passa a ser uma dor. Uma ténue angústia transforma-se num medo do escuro, as cócegas passam a picadas na alma, queres que o dia amanheça rápido, que o sol apareça, que aquela noite acabe, antes que o desespero acabe contigo.
Tudo aquilo que elaboraste como um plano infalível para venceres os teus problemas durante o dia, desmorona-se!
Como é que ias mesmo fazer? Parecia tão fácil, tão simples de resolver, serás que estás a ter um pesadelo? Ou era um sonho durante o dia?
Acaba noite, some-te…Não quero sofrer mais, não quero chorar mais, prometi que tudo ia ser diferente. Tantos planos infalíveis, vida nova, não era?
Não quero esta vida de sofrimento, não tenho ninguém para partilhar esta dor, este desânimo. Vai-te noite e leva contigo este pesadelo.
Vem dia, embrulha-me na tua luz, aquece-me a alma, tira-me deste filme mau, quero paz, esperança, algo que me faça acreditar, que não sou assim tão má e triste que mereça sofrer assim, sem sequer conseguir explicar à minha almofada que carrego desde criança, a razão de a apertar com tanta força!
Finalmente oiço o despertador, tão cega de dor e cansaço nem me apercebi da luz do sol, fraca, embrulhada em nuvens cinzentas, mas dia…
Levanto-me para mais um dia de luta de mim contra mim, tento recompor-me, manter a imagem tonta, que construí de mim, que apenas me empurra mais para o abismo…
Mais um dia, e o desejo que a noite venha longe.



